O paradoxo do graduado qualificado e desempregado

Existe uma narrativa confortável que diz que o problema do emprego em África é simples: faltam qualificações. Se assim fosse, bastaria formar mais pessoas. Mas a realidade contradiz este raciocínio com regularidade. Em vários países africanos, são precisamente os graduados — aqueles que fizeram o que lhes foi pedido — quem enfrenta algumas das mais altas taxas de desemprego. Não por falta de diploma, mas porque o diploma resolveu apenas parte do problema.

Este é o paradoxo central da employability — ou empregabilidade, entendida como a capacidade real e sustentável de um profissional criar, manter e evoluir na sua relação com o mercado de trabalho — em economias africanas. Em algumas economias norte-africanas como a Argélia, o Egito e Marrocos, cerca de 30% dos jovens com educação terciária encontram-se desempregados ou inactivos. O problema não é só a ausência de formação. É a natureza daquilo que se forma.

A fragmentação digital e o profissional inadaptável

África não é um mercado digital homogéneo. É um arquipélago de realidades tecnológicas que coexistem na mesma cidade, por vezes no mesmo edifício. Trabalhadores em multinacionais altamente digitalizadas podem confrontar-se com painéis de inteligência artificial e monitorização em tempo real, enquanto trabalhadores em entidades governamentais, pequenas empresas ou organizações com menos recursos utilizam plataformas digitais fragmentadas ou canais informais de comunicação. Esta desigualdade sugere que a transformação digital do trabalho em África acontece de forma inconsistente, desigual e em múltiplas camadas.

Um profissional formado exclusivamente num ambiente técnico padronizado — com ferramentas, processos e pressupostos de um mercado formal estável — chega ao mundo do trabalho africano e encontra outro filme. As ferramentas mudam consoante o empregador. O mesmo processo pode ser digital numa empresa e manual noutra que opera a cem metros de distância. A adaptação não é opcional; é o trabalho em si. E é exactamente aqui que as competências técnicas sozinhas revelam os seus limites.

Os empregadores reportam consistentemente uma escassez aguda de trabalhadores com as competências técnicas e transversais necessárias para operar com ferramentas digitais modernas e responder às exigências de uma indústria em evolução. Os graduados saem das universidades com credenciais académicas mas sem competências práticas, literacia digital, e capacidades transversais — como comunicação, trabalho em equipa e adaptabilidade — que os empregadores modernos exigem.

A economia híbrida como contexto real de trabalho

Outro factor frequentemente ignorado é a estrutura da própria economia onde estes profissionais vão trabalhar. Dados da Organização Internacional do Trabalho indicam que o emprego informal representou 86,3% de todos os postos de trabalho na África Subsaariana em 2024, a proporção mais elevada de qualquer região do mundo. Isto não é uma anomalia temporária à espera de correcção. É a arquitectura real da economia africana.

Os actores informais não estão envolvidos em actividades marginais, mas representam os mecanismos principais de organização e sustentação das economias africanas. Os trabalhadores informais não são agentes aberrantes — são agentes plenamente racionais que se adaptam a mercados fragmentados, procura instável e suportes institucionais limitados com notável criatividade. Um profissional que nunca aprendeu a operar — a negociar sem contratos escritos, a construir confiança em redes informais, a gerir incerteza sem procedimentos fixos — está estrategicamente desequipado, independentemente do número de certificações que possui.

No Quénia, em 2024, estimam-se cerca de 782.300 novos empregos criados — dos quais aproximadamente 703.700 (cerca de 90%) no sector informal, segundo dados provisórios do Instituto Nacional de Estatísticas do Quénia. A economia formal mal mexeu o ponteiro. Ignorar este facto ao desenhar percursos de formação profissional é o equivalente a treinar alguém para conduzir numa autoestrada quando o destino só tem estradas de terra.

As três camadas de employability em economias híbridas

Para compreender porque é que as competências técnicas já não bastam, é útil pensar a employability em três camadas distintas — não alternativas, mas sobrepostas e interdependentes. As três são necessárias. Só a primeira é ensinada sistematicamente.

Camada técnica: o bilhete de entrada

A camada técnica é o conjunto de competências específicas de uma função: programar, analisar dados, redigir um relatório financeiro, operar equipamento, gerir um projecto. É o que a maior parte dos currículos académicos ensina. É também o que os empregadores avaliam primeiro num processo de selecção. , continua a ser necessária — mas tornou-se uma condição de entrada, não uma vantagem competitiva. Os estudos indicam que as empresas priorizam cada vez mais licenciados capazes de demonstrar inovação, adaptabilidade, comunicação interpessoal, competência digital e capacidades empreendedoras, para além do conhecimento técnico. Quando todos os candidatos têm o bilhete de entrada, quem decide quem entra é outra coisa.

Camada contextual: saber onde se está

A camada contextual é a capacidade de ler o ambiente real onde se trabalha e ajustar o comportamento em conformidade. Inclui compreender a cultura organizacional de um empregador específico, navegar na política interna de uma empresa familiar, saber quando um processo formal é o caminho certo e quando é a relação informal que resolve. É o que distingue alguém que sabe fazer o trabalho de alguém que consegue fazer funcionar o trabalho naquele contexto concreto.

Nas economias africanas, esta camada é particularmente exigente porque o contexto muda muito mais depressa — e de forma muito menos previsível — do que em mercados com instituições mais estáveis. Em vez de preparar os estudantes para empregos estáveis e lineares, a educação deve prepará-los para meios de vida diversificados e não-lineares — o que implica ensinar não apenas competências técnicas, mas também resiliência, adaptabilidade e pensamento empreendedor. A camada contextual é essencialmente isto: a inteligência de situação que transforma competência técnica em desempenho real.

Camada sistémica: entender o jogo mais largo

A camada sistémica é a mais rara e a mais difícil de ensinar formalmente. Refere-se à capacidade de compreender como os sistemas à volta de si funcionam: como as decisões de política pública afectam o mercado onde a empresa opera, como as dinâmicas regionais ou sectoriais criam ou destroem oportunidades, como o formal e o informal se articulam na prática e não na teoria. É o que permite a um profissional antecipar mudanças em vez de apenas reagir a elas.

Num continente onde o Banco Mundial estima que a África Subsaariana precisará de criar 25 milhões de novos empregos por ano ao longo do próximo quarto de século para acompanhar o crescimento da sua força de trabalho , esta capacidade sistémica deixou de ser exclusiva de líderes seniores. Os profissionais que conseguem operar estrategicamente dentro de sistemas complexos e instáveis têm uma vantagem que nenhuma certificação técnica confere. A employability sistémica como preparação de líderes para economias de múltipla camada é precisamente o tipo de pensamento que os mercados africanos estão a começar a exigir de forma explícita.

Porque é que o sistema de formação ainda responde à camada errada

Apesar de as economias africanas estarem a transitar da agricultura para os sectores de serviços e indústria — que exigem competências especializadas —, apenas 9% dos jovens completaram educação terciária em 2025. O défice de acesso é real. Mas o problema não é só de acesso; é também de relevância daquilo que é ensinado quando o acesso existe.

Investigação da Education Sub-Saharan Africa (ESSA) de 2025 indica que apenas 18% dos serviços de carreiras das universidades africanas apoiam actualmente formas de pensar fora do convencional — como mentoria em empreendedorismo —, apesar do crescente reconhecimento de que os licenciados precisam de desenvolver competências de promoção activa de si mesmos a par dos seus diplomas. Os sistemas de educação e formação continuam a investir na camada técnica, que é mais fácil de medir, de ensinar em sala e de certificar. As camadas contextual e sistémica são mais difusas, mais difíceis de avaliar e menos valorizadas nos rankings institucionais. O resultado é previsível: os empregadores percepcionam frequentemente os licenciados como carecendo de competências essenciais de empregabilidade, apesar de possuírem as qualificações técnicas formais.

Este desfasamento tem custos directos para as organizações. Quem contrata um profissional tecnicamente competente mas contextualmente inadaptável acaba por suportar os custos de uma curva de aprendizagem que a formação deveria ter coberto. O custo oculto da baixa employability para a estratégia organizacional é frequentemente subestimado porque não aparece directamente numa linha de despesa — mas aparece na rotatividade, no tempo perdido a reorientar colaboradores e nas oportunidades que não foram aproveitadas.

O que muda quando as três camadas coexistem

Um profissional com as três camadas activas não é simplesmente alguém que sabe mais. É alguém que consegue operar com eficácia quando as condições mudam — quando o cliente é uma empresa multinacional num dia e uma cooperativa informal no seguinte, quando a ferramenta digital disponível não é a que foi ensinada na universidade, quando não existe um manual de procedimentos e é preciso construir a solução a partir do contexto disponível.

Este perfil não é uma abstracção académica. É o que os empregadores africanos mais competitivos estão já a procurar, mesmo quando não usam esta linguagem. As organizações procuram activamente licenciados que consigam adaptar-se, navegar e responder eficazmente a mudanças tecnológicas, de mercado ou sectoriais. A liderança e a adaptabilidade permanecem críticas para a gestão e o crescimento do negócio, sendo vitais para melhorar a empregabilidade dos licenciados. A diferença entre quem consegue e quem não consegue fazer esta transição raramente é técnica. É, quase sempre, contextual e sistémica.

Para as startups e empresas que operam em mercados emergentes africanos, esta distinção tem implicações directas na forma como constroem equipa e como pensam o talento como vantagem competitiva. A employability como estratégia de diferenciação para startups africanas começa precisamente aqui: não na contratação de quem tem mais certificações, mas de quem consegue operar com eficácia real neste ambiente híbrido e fragmentado.

O que fazer com este diagnóstico

Reconhecer as três camadas não é um exercício académico. É um instrumento prático para quem forma, para quem contrata e para quem quer desenvolver a sua própria trajectória profissional num mercado africano. Para os profissionais, o ponto de partida é simples: auditar honestamente onde estão os seus pontos cegos. A competência técnica pode ser real e ainda assim insuficiente se as camadas contextual e sistémica estiverem subdesenvolvidas.

Para as organizações, a implicação é que os programas de desenvolvimento interno precisam de ir além da formação técnica e criar deliberadamente exposição a contextos diversificados — incluindo a interface com a economia informal, a operação em ambientes institucionais instáveis e a tomada de decisão em situações de informação incompleta. A promessa criativa da inteligência artificial e das plataformas digitais, se integrada intencionalmente na economia informal e de pequena escala, pode facilitar o empreendedorismo e a inovação que são fundamentais para o crescimento económico de longo prazo do continente — mas os empregos digitais e de IA projectados exigem que as pessoas certas estejam disponíveis com a formação e os ecossistemas adequados.

O problema não é que as competências técnicas não sejam importantes. São. O problema é continuar a tratá-las como se fossem suficientes, num continente onde o mercado de trabalho real exige muito mais do que aquilo que a maior parte dos sistemas de formação está preparada para oferecer. Enquanto essa distância não for reconhecida e endereçada — por instituições, por empresas e pelos próprios profissionais —, o paradoxo do graduado qualificado e desempregado continuará a repetir-se.

Referências

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Institute for Security Studies. (2024). Africa employment forecast. ISS African Futures. https://futures.issafrica.org/thematic/13-work-jobs/

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The Conversation. (2025, September 24). Graduated, now what? Survey of young Africans shows degrees don't always land them a job. https://theconversation.com/graduated-now-what-survey-of-young-africans-shows-degrees-dont-always-land-them-a-job-264999

World Bank. (2025). Africa's Pulse. World Bank Group.