O problema não é a falta de dados — é estar a medir as coisas erradas

Quando uma equipa de consultoria entra numa capital africana armada com relatórios do FMI e projecções do PIB per capita, está a olhar para o mercado através de uma janela que mostra, na melhor das hipóteses, metade da realidade. Na pior, está a ver uma ilusão construída com dados de sectores formais que representam uma fracção minoritária da actividade económica real.

O pressuposto errado é este: que o PIB oficial é um proxy suficiente para avaliar potencial de mercado. Em mercados com economias predominantemente informais — como é o caso de grande parte da África Subsaariana —, esta premissa não é apenas incompleta. É perigosamente enganadora.

O FMI estima que a economia informal na África Subsaariana representa, em média ponderada, cerca de 34% do PIB oficial, com países como a Tanzânia e a Nigéria a atingir entre 50% e 65% (IMF, 2017). Moçambique, neste espectro, situa-se em torno dos 36% (World Economics, 2024). Estes números não são ruído estatístico — são a substância da economia vivida quotidianamente por dezenas de milhões de pessoas. Ignorá-los não é uma opção metodológica neutra. É uma decisão estratégica com consequências directas na qualidade das decisões de entrada, expansão e posicionamento.

Porque é que os dados oficiais falham nos mercados informais

O problema não é apenas de subcontagem. É estrutural. Os sistemas de estatística nacionais foram concebidos para capturar actividade económica registada, tributada e formalizada. Quando a maior parte das transacções acontece em numerário, em redes de confiança pessoal, em mercados não registados e em cadeias de distribuição informais, o aparelho estatístico convencional perde o sinal.

O resultado é uma assimetria de informação sistémica: investidores e empresas que dependem exclusivamente de fontes oficiais ficam com uma visão distorcida — subestimando o poder de compra real, sobrestimando a importância do sector bancário formal como proxy de inclusão financeira, e ignorando redes de distribuição que movem produtos em volumes que nunca aparecem em nenhum relatório sectorial.

Em Moçambique, por exemplo, uma análise baseada em dados bancários formais sugeriria um mercado de consumo modesto. Mas esta leitura omite completamente os fluxos económicos que sustentam mercados informais urbanos como o Xipamanine em Maputo — ecossistemas comerciais densos, com relações de crédito informal, especialização de produto e dinâmicas de preços próprias que não encontram eco em nenhuma base de dados oficial. Este é o tipo de sistema que vale a pena entender com a mesma seriedade analítica com que se estuda um relatório da Bolsa de Valores de Johannesburgo. Para quem quiser aprofundar a leitura sistémica destes mercados, como as multinacionais podem aplicar systems thinking nos mercados africanos oferece um ponto de partida relevante.

Indicadores alternativos: o que medir quando o PIB não chega

A resposta não é abandonar os dados — é construir um conjunto de indicadores alternativos que capturam o que os dados oficiais omitem. Existem três categorias de sinais que, combinados, permitem uma leitura muito mais robusta do potencial de mercado real.

Mobile money como termómetro de actividade económica

A penetração do mobile money é, actualmente, um dos indicadores mais poderosos disponíveis para avaliar actividade económica em mercados onde o sector bancário formal tem alcance limitado. Em 2024, África processou 65% do valor global de transacções de mobile money — 1,1 biliões de dólares. No final desse ano, o continente tinha 1,1 mil milhões de contas registadas, representando 53% do total mundial de 2,1 mil milhões.

Estes números têm implicações directas para a estratégia de crescimento. Uma empresa que entra num mercado e mede penetração financeira apenas pelo acesso bancário tradicional irá subestimar sistematicamente a capacidade de pagamento da população. Na África Subsaariana, 40% dos adultos tinham uma conta de mobile money em 2024, um aumento face aos 27% registados em 2021. O que isto significa na prática: há dezenas de milhões de consumidores com capacidade real de transacção digital que simplesmente não aparecem nas estatísticas de inclusão financeira baseadas em contas bancárias convencionais.

O mobile money é também, por isso, um proxy razoável para estimar poder de compra efectivo, frequência de transacção e padrões de consumo — especialmente quando cruzado com dados de agentes de rede, que permitem mapear densidade económica a nível subnacional. Em 2024, o número de agentes de mobile money registados atingiu os 28 milhões, um aumento de 20% face a 2023, dos quais 10 milhões estavam activos mensalmente — um crescimento de 17% relativamente ao ano anterior.

Remessas: o indicador esquecido que revela poder de compra real

As remessas da diáspora são um dos fluxos financeiros menos valorizados na análise de mercado convencional — e um dos mais reveladores. Em 2024, a África Subsaariana recebeu um estimado de 56 mil milhões de dólares em remessas formais, sendo que os fluxos reais poderão ser significativamente mais elevados quando se contabilizam as transferências informais. Em 2023, estes fluxos foram quase 1,5 vezes superiores ao total de investimento directo estrangeiro recebido pela região.

O que torna as remessas particularmente úteis como indicador de mercado é a sua granularidade geográfica e a sua natureza contracíclica: tendem a manter-se ou até aumentar em períodos de contracção económica, porque a diáspora responde ao stress das famílias. Em várias economias da região, as remessas constituem mais de 10% do PIB; em países como a Gâmbia, Comoros, Lesoto e Cabo Verde, essa proporção ultrapassa os 20%. Para uma empresa de consumo, um retalhista ou um operador de serviços financeiros, a concentração geográfica dos fluxos de remessas é, em muitos casos, um mapa de procura mais fiável do que qualquer estudo de mercado baseado em declarações fiscais.

WhatsApp commerce: a economia invisível que já tem escala

O comércio via WhatsApp é possivelmente o fenómeno económico mais subestimado nos mercados africanos emergentes. Grupos de WhatsApp funcionam como mercados, redes de distribuição, sistemas de encomenda e canais de crédito informal simultaneamente. Em Moçambique, no Zimbabwe, no Gana e na Nigéria, negócios inteiros operam exclusivamente através destas redes — sem registo, sem presença online formal, sem dados que alimentem qualquer base de dados oficial.

A dificuldade de quantificação não deve ser confundida com irrelevância. O WhatsApp commerce é um sinal de actividade económica real que não precisa de uma estimativa estatística precisa para ser estrategicamente útil: a sua presença e densidade numa categoria de produto ou serviço indica que existe procura efectiva, que existem redes de confiança capazes de sustentar transacções, e que os modelos de distribuição convencionais podem ser menos relevantes do que se assume. Uma análise inteligente de campo — observação directa, entrevistas estruturadas com comerciantes informais, mapeamento de grupos — pode produzir insights de mercado que nenhum dataset oficial consegue replicar.

Framework integrado: systems thinking aplicado à análise informal

A combinação destes três tipos de indicadores — mobile money, remessas e comércio informal digital — não produz, por si só, uma análise de mercado. Produz sinais. O que transforma sinais em estratégia é a capacidade de os interpretar como um sistema, e não como variáveis independentes.

O ponto de partida é reconhecer que a economia informal não é um resíduo da economia formal. É frequentemente o sistema primário, com a economia formal a operar na periferia. Esta inversão de perspectiva tem consequências metodológicas directas: em vez de partir da estrutura formal e perguntar onde existe informalidade, a análise deve partir das redes informais e perguntar onde é que a formalização acrescenta valor — e onde não acrescenta.

Um framework operacional útil passa por quatro perguntas sequenciais. Primeiro: onde está o dinheiro real a circular? — identificado através de mobile money, remessas e observação directa de mercados. Segundo: quais são as redes de confiança que sustentam as transacções? — porque em economias informais, o crédito e a distribuição fluem através de relações, não de contratos. Terceiro: qual é o verdadeiro custo de acesso ao mercado? — não o custo de operar formalmente, mas o custo de ser adoptado pelas redes informais existentes. E quarto: onde estão os pontos de alavancagem sistémica? — os nós da rede onde uma intervenção pequena tem efeitos desproporcionais. Sobre este último ponto, a análise de barreiras sistémicas aplicada ao contexto moçambicano oferece uma metodologia que pode ser adaptada à análise de mercado com utilidade directa.

Esta abordagem não substitui a análise quantitativa convencional — complementa-a. O objectivo não é rejeitar o PIB como indicador, mas situá-lo no seu lugar correcto: uma medida parcial de uma economia que é muito maior e mais complexa do que os números oficiais sugerem. A proporção de emprego informal no total do emprego em África foi estimada em 85,3% em 2024, comparada com uma média mundial de 57,8%. Qualquer estratégia de crescimento que não incorpore esta realidade estrutural está a planear para uma economia que existe nos relatórios, não no terreno.

As implicações práticas para decisores

Para líderes empresariais e investidores que operam ou planeiam entrar em mercados africanos com economias predominantemente informais, a consequência prática desta análise é directa: os processos de due diligence de mercado precisam de ser redesenhados. Não apenas complementados — redesenhados.

Isso implica investir em capacidade de análise de campo que vai além de relatórios de consultoria baseados em dados secundários. Implica construir relações com actores da economia informal — comerciantes, operadores de redes de distribuição, agentes de mobile money — que funcionam como fontes primárias de informação estratégica. E implica desenvolver métricas internas de acompanhamento que capturem sinais de actividade real: volume de transacções mobile money na área geográfica relevante, fluxos de remessas por corredor, densidade de comércio WhatsApp por categoria.

A boa notícia é que quem investir nesta capacidade analítica ganha uma vantagem de informação sustentável. Os mercados africanos com maior peso informal são precisamente os que menos investigação de qualidade atraem — o que significa que a barreira de entrada analítica é relativamente baixa, e o prémio de ser o actor mais bem informado é relativamente alto.

O crescimento estratégico em economias informais não começa com uma estratégia de crescimento. Começa com uma leitura honesta da realidade. E essa leitura exige instrumentos diferentes dos que a formação convencional em gestão proporciona. Sobre como as empresas que operam como orquestradores de ecossistemas — em vez de simples adquirentes de activos — conseguem capturar este potencial de forma estruturada, a análise de crescimento por orquestração de redes em África desenvolve esse argumento com detalhe.

Referências

GSMA. (2025). State of the Industry Report on Mobile Money 2025. GSMA. https://www.gsma.com/solutions-and-impact/connectivity-for-good/mobile-for-development/gsma-mobilefordevelopment/state-of-the-industry-report-on-mobile-money/

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Ratha, D., et al. (2024). Remittances Slowed in 2023, Expected to Grow Faster in 2024. Migration and Development Brief. World Bank Group. https://documents1.worldbank.org/curated/en/099714008132436612/pdf/IDU1a9cf73b51fcad1425a1a0dd1cc8f2f3331ce.pdf

South African Reserve Bank. (2024). Cost Patterns of Remittances to Sub-Saharan Africa. SARB Cross-Border Payments Conference. https://www.resbank.co.za/content/dam/sarb/what-we-do/payments-and-settlements/cross-border-payments-conference/documents/paper-cost-patterns-remittance.pdf

World Bank. (2024). Migration and Development Brief: In 2024, Remittance Flows to Low- and Middle-Income Countries Are Expected to Reach $685 Billion. World Bank Group. https://blogs.worldbank.org/en/peoplemove/in-2024--remittance-flows-to-low--and-middle-income-countries-are

World Economics. (2024). Mozambique Informal Economy Size. World Economics. https://www.worldeconomics.com/Informal-Economy/Mozambique.aspx